A criança órfã é arrancada
do seio de sua mãe;
o recém-nascido do pobre é tomado
para pagar uma dívida. Por falta de roupas, andam nus;
carregam os feixes,
mas continuam famintos. Espremem azeitonas
dentro dos seus muros;
pisam uvas nos lagares,
mas assim mesmo sofrem sede. Sobem da cidade os gemidos
dos que estão para morrer,
e as almas dos feridos
clamam por socorro.
Mas Deus não vê mal nisso. "Há os que se revoltam
contra a luz,
não conhecem os caminhos dela
e não permanecem em suas veredas. De manhã o assassino se levanta
e mata os pobres e os necessitados;
de noite age como ladrão. Os olhos do adúltero
ficam à espera do crepúsculo;
'Nenhum olho me verá', pensa ele;
e mantém oculto o rosto. No escuro os homens invadem casas,
mas de dia se enclausuram;
não querem saber da luz. Para eles a manhã
é tremenda escuridão;
eles são amigos
dos pavores das trevas. "São, porém, como espuma
sobre as águas;
sua parte da terra foi amaldiçoada,
e por isso ninguém vai às vinhas. Assim como o calor e a seca
depressa consomem a neve derretida,
assim a sepultura consome
os que pecaram. Sua mãe os esquece,
os vermes se banqueteiam neles.
Ninguém se lembra dos maus;
quebram-se como árvores.